Por que mulheres são minoria na TI?

Por Déborah Oliveira*, ITForum365

O mercado vive, sem dúvida, momento ímpar na tecnologia. Novidades surgem a todo momento, desafiando profissionais de todo o tipo. Mas será que as mulheres estão surfando essa onda? Foi com essa pergunta que Maria Alice Mendes, senior associate da Korn Ferry, empresa de executive search, iniciou o debate do painel Mulheres no Comando da TI, durante o IT Forum.

Maria Alice comentou que estudo recente identificou que no Brasil, dos 580 mil profissionais, apenas 20% são mulheres. Outro dado está relacionado aos cursos voltados para tecnologia. “Levantamento da Microsoft apontou que década de 80, havia 50% mulheres nos cursos e agora caiu para 10%. A pesquisa traz a hipótese de que, naquela época, com o computador pessoal, que foi levado a ser mais objeto de interesse masculino, as mulheres desapareceram dos cursos”, apontou.

Elisabete Waller, sócia de Advisory da EY, que acompanhou a discussão da plateia concordou e afirmou que quando ingressou na universidade de engenharia sua sala era composta por três mulheres e, ao final, apenas duas se formaram.

Também da plateia, para agregar à discussão, Ruy Shiozawa, presidente doGreat Place to Work (GPTW) Brasil, levantou dados interessantes. De acordo com ele, do total de graduados no Brasil, 60% são mulheres, em pós-graduação o número cai para 51%, já em gestão são 33%. “Quando se fala de salário, o cenário é ainda pior. Para posições iguais, com mulheres com mais tempo de casa, mais formação, elas ganham 35% a menos em média”, apontou.

Afinal, o que acontece?
Na opinião das painelistas, o problema começa lá atrás. Lyzbeth Cronembold, diretora de TI e Operações de TI MDOOH do Grupo Bandeirantes de Comunicação , apontou que não há incentivo na infância para as mulheres seguirem carreira em tecnologia. “Isso está muito ligado aos valores familiares”, comentou.

Jane Noronha, CIO da Gafisa, concordou e acrescentou que a maioria dos pais não incentiva mulheres a competir. Já Viviane Lusvarghi, CIO da Santher, comentou que, em sua visão, a falta de incentivo está relacionada ao modelo que a mãe representa para a filha.

Como incluir mulheres na TI?
Para Viviane, é preciso equidade de gêneros. Tanto que no recrutamento para a TI da Santher, na primeira fase de seleção dos currículos, o nome e o gênero do candidato são ocultados. “Isso tem sido uma surpresa”, relatou.

Jane segue a mesma linha. “As mulheres geralmente são mais capacitadas do que os homens”, acrescentou. O ideal, disse Lyzbeth, é fomentar na empresa uma política de diversidade, incluindo práticas de recrutamento e seleção nesse sentido. “Um exemplo interessante é a Nestlé.”

Ascensão profissional
Outro tema discutido no painel foi a ascensão profissional de mulheres. Elas comentaram que investem em coaching e mentoring de outras mulheres, mas que também é preciso se posicionar e arriscar, até mesmo aplicando para vagas que elas acreditam que não têm todas as competências. Da plateia, Monica Panelli, diretora de marketing da Rimini Street para América Latina, afirmou que, de fato, as mulheres precisa se colocar mais. Lyzbeth acredita que a resposta está no fato de, efetivamente, mostrar resultados.

Exemplos a serem seguidos
Eduardo Kondo, CIO da Aché, entrou na discussão para apontar que as mulheres precisam discutir mais onde chegaram. “Vejo pouco isso”. Ele recentemente estive na Universidade de São Paulo na Escola de Engenharia, e todos os convidados para falar sobre suas carreiras eram homens. “Há exemplos como a Cristina Palmaka, da SAP, e a Paula Bellizia, da Microsoft, que fomentam o tema, mas precisamos de mais.”

Viviane concordou e acrescentou que até mesmo no prêmio Executivo de TI do Ano, promovido pela IT Mídia, o número de mulheres era bastante tímido, mas cresceu neste ano e duas delas, incluindo a própria executiva, levaram o prêmio para casa. “Temos um grupo de mulheres no WhatsApp e eu as provoquei a participar. Para mim, foi a primeira vez e sai vitoriosa”, comemorou.

Inclusão x exclusão
Falar de mulheres na TI é também uma forma de exclusão? Jane acredita que sim, é uma forma de segregação. Contudo, criar debates sobre o tema é uma forma de ajudar as demais mulheres. “Temos de virar referência para elas. Se elas não virem que é possível, não vão”, assinalou. Na visão de Alessandra Bomura, CIO da Vivo, a discussão também tem de incluir os homens. Alguns deles, inclusive, participaram do debate no IT Forum.

Márcia Sabino Duarte, CIO da Caesb, engrossou o coro e afirmou, ainda, que uma pessoa é competente ou não é e a discussão não deveria girar em torno de ser homem ou mulher.

Mais resultados
Janet Donio, CIO da Vicunha, citou estudo recente que mapeou o desempenho de empresas com mulheres no conselho e o resultado delas foi superior. às demais do mercado “Os boards têm pouco número de mulheres e TI tinha de ter mais representatividade também”, provocou.

Atitude
Em linha com o tema do IT Forum: Mudança, Medo e Atitude, Maria Alice perguntou às painelistas o que é possível fazer para mudar. Elas foram unânimes ao dizer que é crítico fazer acontecer e cada uma tem papel fundamental. Lyzbeth participa do Movimento ElesPorElas (HeForShe) de Solidariedade da ONU Mulheres pela Igualdade de Gênero.

Ela também citou um programa da SAP para inclusão de mulheres na TI, que tem como foco pessoas de comunidades. “Precisamos criar referências”, sentenciou. Já Viviane enfatizou o fato de mulheres precisarem ter atitude e engajar os homens na conversa.

E, você, o que acha?

A inspiradora história de duas mulheres que fazem a diferença na TI

Por Déborah Oliveira*, ITForum365

Você pode nunca ter ouvido falar de Tan Le ou Reshma Saujani, mas as duas empreendedoras fazem, de fato, a diferença no mercado de tecnologia. No último dia do Inforum, realizado nesta semana pela Infor nos Estados Unidos, as duas compartilharam suas histórias em painel do Women Infor Network (Win), inspirando elas a saírem de suas zonas de conforto e fomentar o verdadeiro sentido do ‘girl power’.

Era o ano de 2003 quando a vietnamita Tan se viu diante de uma encruzilhada. Ela tinha uma posição estável e privilegiada em uma empresa tradicional nos Estados Unidos, mas percebeu que nada do que fazia profissionalmente a completava ou a deixava satisfeita. Ela queria um futuro melhor para a sociedade.

“Um dia conversando com amigos começamos a falar sobre o cérebro e todo o seu potencial. Nas semanas seguintes eu voltei ao tema, cativada pelas suas possibilidades e desafios”, contou a hoje fundadora e CEO da EMOTIV, empresa de bioinformática que estuda o cérebro e ensina os computadores a pensar por si só, no melhor estilo inteligência artificial. “Encontrei resiliência e flexibilidade para construir uma empresa e desenvolver soluções em um mundo de incertezas. Para mim a lição foi que se você tiver coragem, não há desafio ou obstáculo que te pare”, sugeriu.

Tan Le, fundadora e CEO da EMOTIV

O fato de o cérebro ser um sistema dinâmico que se reprograma conforme o uso é algo que a instiga a buscar novas possibilidades de reforçá-lo. No palco do evento, Tan mostrou como essa ideia funciona na prática. Um vídeo sobre um brasileiro, que ficou paraplégico aos 18 anos, mostrou que é possível dirigir um carro de Fórmula 1 sem o uso de volante ou pedais, apenas usando um headset que lê ondas cerebrais. “A tecnologia se está tornando melhor, possibilitando um mundo inclusivo, aberto e com mais possibilidades para todos.”

Garotas que sabem programar
Reshma Saujani nasceu nos Estados Unidos, onde seus pais, indianos e refugiados, chegaram em 1973. Aos 33 anos, ela trabalhava no setor financeiro e não sentia que fazia a diferença. Ela queria mais. “Eu não gostava do meu trabalho. Eu sabia o que tinha de fazer e não fazia”, contou.

Foi quando em 2008 ela se sentiu motivada por um discurso de Hillary Clinton, sua mentora, que dizia que falhar não significa que a pessoa não deveria ter tentado. “Então decidi me candidatar a uma posição no Congresso norte-americano. Tinha poucas chances de ganhar, mas mesmo assim tentei”, disse a primeira descendente de indianos a concorrer a uma vaga no Congresso dos EUA.

Reshma Saujani, fundadora do Girls Who Code

Ela lembrou que embora não tivesse saído vitoriosa da campanha, os dez meses desse projeto foram os melhores de sua vida. “Perdi, fiquei devastada e não tinha um plano de contingência. Então comecei a observar que havia mais meninos do que meninas em aulas de computação e pensei: ‘onde elas estão?’ e essa pergunta foi uma obsessão para mim.”

Reshma não sabia programar, mas estudou o tema e fundou o Girls Who Code, que já formou mais de 40 mil meninas em todos os 50 estados dos Estados Unidos. Ela lembrou o fato de que 45% das atividades serão automatizadas nos próximos anos, segundo a McKinsey, gera medo, mas também oportunidades.

O desafio, contudo, segundo ela, é o grande gargalo de talentos. “Mas esse, definitivamente, não é um problema sem solução. A resposta está no ‘girl power’”, incentivou. Ela reconheceu, no entanto, que há uma barreira cultural que deve ser superada para esse chamamento fazer sentido. “Vivemos um mundo de mito que mulheres não são boas em matemática”, disse. Além disso, completou, as meninas são geralmente educadas para serem perfeitas e não corajosas. “Os meninos são educados para serem bravos. Escalar, pular e serem destemidos. As meninas não”, lamentou, incentivando uma mudança imediata nesse comportamento que parte dos pais.

No Girls Who Code ela observa constantemente essa diferença. “As meninas desenham um código e o apagam, pois pensam que está errado. Em vez de mostrar o progresso, elas preferem não mostrar nada. É perfeição ou nada. Precisamos ser imperfeitas”, sentenciou, acrescentando que quando as mulheres aprendem a codificar elas criam coisas incríveis e com um senso de ajuda ao próximo impressionante. “Temos, sim, de ensinar nossas meninas a serem bravas”, finalizou.

*A jornalista viajou a Nova Iorque (EUA) a convite da Infor

Mulheres, não tenham medo de pedir ajuda!

Por Déborah Oliveira*, ITForum365

Aruna Ravichandran, vice-presidente de Marketing Global de Produtos e Soluções da CA Technologies, tem mais 20 anos de experiência em marketing de produto em vários mercados. Ela iniciou sua carreira como engenheira na Hewlett Packard e tem em seu currículo cargos de liderança em engenharia e marketing. Após 17 anos na Hewlett Packard, passou a comandar o departamento de Marketing e Estratégia para Redes Definidas de Software na Juniper Networks antes de se juntar à CA em 2014.

Por ter iniciado sua trajetória do lado técnico e somente depois migrado para o Marketing, ela sabe muito bem como lidar com os desafios de um ambiente majoritariamente composto por homens. E durante sua carreira um de seus maiores aprendizados foi não ter medo de pedir ajuda.

“Peça suporte para quem está com você. Eu sempre tive mentores na minha vida. Se você tem um foco e estabelece um ecossistema de confiança, você seguramente crescerá”, aconselha Aruna, que em 2016 foi nomeada uma das 100 mulheres mais influentes no Vale do Silício pelo San Jose Business Journal, bem como recebeu o Prêmio da Mulher Mais Poderosa e Influente de 2016, pelo National Diversity Council (Conselho Norte-Americano de Diversidade).

Logo no início da sua carreira, Aruna desenvolveu uma estratégia nesse sentido. “Quando eu admirava uma pessoa, mesmo que eu não a conhecesse e ela estivesse em uma conferência, eu pedia para ela ser minha mentora”, diz. “Minha filosofia é a de que nunca dói perguntar, e o máximo que você vai ouvir é um ‘não’. Se for um sim, você certamente se beneficiará disso”, completa.

Ambiente positivo

Aruna acredita que manter um ambiente positivo é fundamental para o desenvolvimento das mulheres. Nem sempre foi assim em sua trajetória, mas nem por isso ela se calou ou desistiu. Ela conta que sua primeira filha nasceu prematura e teve de trabalhar de casa no começo. “Minha gerente me suportou, mas meu time essencialmente composto por homens, não. Eu não sabia que o meu maior desafio seria enfrentar meu time. Não foi fácil”, lembra.

Mas ela não se deixou abalar e resolveu escalar a situação. “Algumas pessoas me falaram que eu me queimaria se contasse para o RH. E eu pensei: o máximo que pode acontecer é eu ser demitida. Eu levei para o próximo nível da empresa e eles fizeram ações internas, conscientizando pessoas e ajudando na mudança do comportamento. Eu poderia ter ficado calada, mas outra mulher passaria pela mesma situação”, comenta orgulhosa.

Para seu time, Aruna busca sempre contratar mulheres. Não que essa seja uma obrigação, mas ela sempre pede que o RH apresente candidatas mulheres. “Busco os melhores e dou uma chance. Aconteceu comigo. Eu tive uma chance, mudei de engenharia para marketing. Fui entrevistada para 30 empregos e eles diziam que eu não tinha a experiência ou preferiam um homem. Um gerente decidiu me dar uma chance mesmo eu não tendo experiência. Eu acredito em dar chances para as pessoas”, revela.

Mulheres na TI, um trabalho de formiga

A executiva acredita que não é apenas no Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde mora e trabalha, que há pouca representatividade de mulheres, especialmente exercendo cargos de liderança. “É um desafio geral”, reflete, apontando que é preciso criar um forte ecossistema para as mulheres.

Aruna pessoalmente encoraja mulheres a ingressarem na área de tecnologia. Recentemente, ela obteve sucesso ao incentivar sua filha mais velha, Monica Ravichandran, a seguir seus passos. Atualmente, Monica está no segundo ano de Ciência da Computação na California Polytechnic State University, nos Estados Unidos, e em princípio seguir uma carreira em tecnologia definitivamente não estava em seus planos.

“Levei minha filha para falar com outras mulheres da minha rede. Uma das minhas amigas tem posição de destaque na Oracle e há outra no Google. Ela conversou com várias pessoas e tomou a decisão”, relata Aruna, reforçando que o apoio familiar é fundamental nessa jornada. “Disse que se ainda assim ela não gostasse, tudo bem. De toda forma, ela precisaria ao menos tentar.”

Já no primeiro ano da universidade sua filha sentiu na pele o motivo pelo qual muitas mulheres desistem da disciplina. “A sociedade não torna a trajetória fácil para mulheres que querem seguir a carreira em ciência da computação. Ela foi negligenciada no grupo de meninos. Eu a disse para enfrentar o problema. Mas nem todas as meninas fazem isso. Agora, toda menina que entra na universidade tem um mentor”, afirma, completando que muita gente não consegue lidar com a pressão e tranca a faculdade.

Mas não é somente dentro de casa que ela ajuda na trilha da busca por uma carreira em TI. Aruna visita escolas constantemente para falar sobre tecnologia e mostrar as oportunidades na área. “Evangelizar é fundamental”, alerta.
Ela também incentivou a Santa Clara University, universidade que cursou, a criar um programa para levar meninas ao campus e conhecer as disciplinas de engenharia, vendo de perto como são as aulas. “Elas têm de ser expostas a isso”, argumenta.

Para Aruna, se todos fizerem um pouco e abraçarem a causa, ajudando outras mulheres, é possível engajar o público feminino em TI. Com Monica, sua filha, a semente foi plantada. Recentemente, a jovem escreveu um artigo em seu LinkedIn apontando que quer ser uma voz ativa para facilitar outras mulheres a alcançarem seus objetivos, tornando-se parte da equipe na Girls who Code, organização sem fins lucrativos dos EUA que incentiva o ingresso de meninas na TI.

*A jornalista viajou a Las Vegas (EUA) a convite da CA Technologies