Mulheres ganham 30% menos do que homens no setor de TI

Por Déborah Oliveira, Computerworld

A remuneração média mensal de mulheres no setor de Tecnologia da Informação (TI) é 30,4% menor que a de homens (R$ 4,3 mil frente a R$ 6,1 mil).

É o que aponta estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com informações colhidas na Relação Anual de Informações Sociais – RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTb). Segundo a RAIS, em 31 de dezembro de 2016, o setor empregava 159.135 trabalhadores em São Paulo, sendo 54.136 (34%) mulheres e 104.999 (66%) homens.

Os números do levantamento mostram que os profissionais de TI no estado de São Paulo são altamente escolarizados, muito acima das médias vigorantes no mercado de trabalho brasileiro. Em dezembro de 2016, mais da metade das trabalhadoras (59,1%) tinha ensino superior completo, 9,4% estavam fazendo um curso universitário ou haviam ingressado e depois abandonado, e um quarto (25,5%) havia concluído o ensino médio. Agregando-se esses percentuais, tem-se que 60,2% das mulheres do setor haviam completado o ensino superior ou mais (mestrado e doutorado) e 95,1% tinham o ensino médio completo ou mais.

 

Desigualdade salarial de gênero segundo a escolaridade

A remuneração cresce no setor de TI à medida que o profissional alcança faixas superiores de escolaridade, tanto para homens como para mulheres. Em todas as faixas de escolaridade, no entanto, as trabalhadoras ganham menos do que os homens.

“Pode-se apontar, no setor de TI paulista, uma tendência ao crescimento da desigualdade entre a remuneração da mulher e do homem a partir do momento em que ambos concluem a graduação, repetindo-se com maior intensidade quando da conclusão do mestrado e mais ainda quando da obtenção do doutorado”, explica Marco Antonio Pereira, economista do Dieese.

 

Faixa etária e sua relação com o mercado de trabalho

Os profissionais de TI entre 18 e 39 anos representam três quartos das mulheres (76,5%) e dos homens (77,0%). Entre 40 e 49 anos, situam-se pouco menos de 15% dos trabalhadores. Pouco mais de 8% têm 50 anos ou mais.

7 histórias inspiradoras de mulheres brasileiras em TI

Por Déborah Oliveira, Computerworld

Quantas mulheres você vê na TI nas empresas que conhece? Poucas, não é? Mas no evento Por um Planeta 50-50: mulheres e meninas na ciência e tecnologia, realizado pela Serasa Experian em parceria com a ONU Mulheres, elas estavam em peso e compartilharam histórias sobre suas carreiras, que podem servir de inspiração para profissionais de hoje e do futuro, e suas contribuições para uma TI com mais força de trabalho feminina. A maioria traz um enredo comum: preconceito e dúvidas. Mas a superação é, sem dúvidas, o destaque. Acompanhe abaixo.

 

Elaine Matos, gerente de Produto da Dow para América Latina e líder da Rede de Diversidade African-American Network (AAN)
“Represento um case de diversidade na empresa”, sintetizou Elaine, afirmando que tinha tudo para ser o contrário, por carregar muitos dos esteriótipos alimentados pela sociedade. “Tenho 34 anos, sou negra, filha de nordestinos e não sou formada em ciência da computação e, sim, em administração”, contou.

A executiva, que há 16 anos trabalha na Dow, uniu-se à luta pela diversidade, bandeira empunhada há anos pela empresa do setor químico. “Quando olhamos para as lideranças, temos 33% de mulheres e somente duas líderes negras. Aí veio a necessidade de criar a rede African American, grupo de empoderamento de mulheres negras, da qual represento há dois anos, trabalhando com ações afirmativas”, comentou.

Para ela, o pensamento mais perigoso é “sempre fizemos assim”. A executiva alerta que é preciso quebrar as regras e mudar o cenário. “Temos de trabalhar a questão das mulheres, acreditar que podemos exercer o cargo que nós quisermos”, afirmou.

 

Flavia Roberta Silvia, gerente de Projetos da IBM
Flavia cita a avó, que era da Marinha, e ainda seu pai, considerado por ela um verdadeiro ‘nerd’, como seus grandes exemplos e incentivadores do seu ingresso na tecnologia. “Tinha dez anos, quando meu pai me deu um TK 90, microcomputador lançado em 1985. Aquilo foi um sonho”, lembrou.

Anos depois, ela ingressou na Fatec e formou-se em Ciência da Computação. Em seguida, veio a oportunidade de trabalhar na IBM, onde está há 22 anos. “A IBM sempre levantou a bandeira da diversidade. Eu, como negra, me identifiquei”, contou.

Mas nem tudo foram flores em sua trajetória. “Perdi noites de sono, comecei a tomar portas na cara. Mas conheci o mundo pela IBM e gerenciei projetos internacionais. Casei e engravidei. Em três meses, obitive certificações em tempo recorde, com planejamento e foco. Fique grávida de novo, mas isso me custou, pois tive depressão pós-parto no retorno”, listou ela.

São altos e baixos que fazem parte da carreira de muitas pessoas, reconheceu. “Tem momento de glória, mas tem muito rock and roll. E é assim que nos fortalecemos. Não temos ideia de onde podemos ir, imaginamos uma história e os caminhos vão mudando. É preciso centrar, parar e pensar”, observou. Como recomendação, Flavia sugere que as mulheres estejam sempre prontas e invistam pesado no networking, pois ele faz a diferença.

 

Renata de Biasi, engenheira eletricista da Divisão de Programação e Estatística (OPSP.DT) da Itaipu
Filha de engenheiro, Renata desde criança teve o apoio dos pais para seguir a carreira. Depois de fazer um curso técnico, em seguida, graduou-se em engenharia, em que afirma ter conhecido professores inspiradores.

Há 20 anos atuando como engenheira em Itaipu, por boa parte deles, ela foi a única mulher da área. Hoje, o cenário mudou. “Há mulheres, mas em minha equipe sou a única.” Ela relata não ter sentido preconceito. “Ao contrário, os homens do departamento sempre me ensinaram muito. Nunca me senti diferente por ser mulher. Claro que tem dificuldades, mas isso faz parte da carreira de todas as pessoas.”

Segundo ela, o segredo para se desenvolver é não esperar. “Temos de ir atrás das oportunidades e agarrar as que aparecem”, recomendou.

 

Regina Acher, cofundadora da Laboratoria
O Dia das Mulheres em Ciência e Tecnologia nunca foi tão importante. Essa é a opinião de Regina. “Quando falamos da qualificação das mulheres não dá para falar só da igualdade, mas especialmente sobre diversidade de pensamento da indústria, além do impacto social”, afirmou ela.

Regina queria fazer a diferença na vida de meninas e mulheres e incentivá-las a seguir carreira em TI. Assim, quando conheceu uma das fundadoras do Laboratoria, ONG peruana que capacita mulheres para a área de tecnologia, decidiu trazer a ideia para o Brasil.

Em abril de 2018, a Laboratoria capacitará sua primeira turma em São Paulo, desenvolvendo 60 meninas. A ideia é replicar o modelo de sucesso da ação na América Latina, que formou 560 alunas nos últimos três anos.

 

Sueli Nascimento, gerente de Produtos e líder da Rede Mulheres da SAP
Quando criança, Sueli queria ter uma Rosie, a governanta dos Jetsons. “Meu irmão se formou em engenharia e foi para a IBM. Vi ali uma chance de ter a minha robô”, brincou.

Foi quando ela teve o primeiro contato com a computação, com o microcomputador TK 85. “Me apaixonei e percebi que eu poderia ajudar o mundo todo. Já com 17 anos sonhava em ajudar o mundo a rodar melhor e a melhorar a vida das pessoas”, contou.

 

Ana Lucia Salmeron, diretora de Healthcare & Hotels Segment da Schneider Electric para América Latina
Engenheira eletrônica há 30 anos, Ana sempre trabalhou na área técnica. A influência do pai engenheiro contribuiu para esse cenário. “Meu pai foi um excelente exemplo. Eu queria ganhar bem e ser bem-sucedida. Como gostava muito de matemática e física, ciência da computação foi um caminho natural”, relatou.

Para ela, o difícil é relativo e ao longo da sua carreira entendeu que não há problemas em entregar projetos não-perfeitos. “Sempre busquei a perfeição e muitas vezes isso faz com que nós mulheres evitemos entrar em situações para não falhar. A mania de fazer tudo perfeito da primeira vez nos impede de crescer, sendo que 80% é sensacional, depois vêm os ajustes”, aconselhou.

Apesar da história bem-sucedida, Ana lembra que já pensou, sim, em desistir da carreira. “Depois de ter meu primeiro filho, quis largar tudo, mas minha família me segurou. No segundo filho nem pensei nisso. Passados 30 anos de carreira, foi fácil? Foi, afinal, vida bem vivida é fácil.”

 

Rejane Jardim, gerente de Projeto da White Martins
Há 13 anos na White Martins, multinacional brasileira que atua no mercado de fabricação de gases industriais, Rejane convivia com os números desde cedo. Afinal, seu pai era comerciante e os cálculos faziam parte da rotina. “Quando cresci, sabia que queria cursar engenharia, mas me sentia sozinha, não sabia qual caminho seguir”, lembrou.

Foi quando, então, no colégio, o professor de Química convidou um colega engenheiro químico para palestrar para os alunos. Ele a encantou com a profissão e a fez tomar a decisião de seguir essa trilha. Veio o vestibular e o resultado foi o ingresso em duas universidades públicas, fora da sua cidade, no interior do Rio de Janeiro.

“Na Rodoviária, vi minha mãe chorando. A abracei e disse que tudo daria certo”, lembrou. O aprendizado que Rejane tira desse momento foi que é preciso liderar seu futuro. “Desenvolva suas habilidades. Pensei que voltar não era opção, então fui fazer um estágio em automação industrial. Formei-me em 2000, fui efetivada nessa empresa. Mas os líderes tomavam algumas atitudes que eu não concordava. Então saí. Isso me fez pensar que não se pode deixar ninguém tomar uma decisão por você. Só você sabe onde quer chegar”, finaliza.

Por que mulheres são minoria na TI?

Por Déborah Oliveira*, ITForum365

O mercado vive, sem dúvida, momento ímpar na tecnologia. Novidades surgem a todo momento, desafiando profissionais de todo o tipo. Mas será que as mulheres estão surfando essa onda? Foi com essa pergunta que Maria Alice Mendes, senior associate da Korn Ferry, empresa de executive search, iniciou o debate do painel Mulheres no Comando da TI, durante o IT Forum.

Maria Alice comentou que estudo recente identificou que no Brasil, dos 580 mil profissionais, apenas 20% são mulheres. Outro dado está relacionado aos cursos voltados para tecnologia. “Levantamento da Microsoft apontou que década de 80, havia 50% mulheres nos cursos e agora caiu para 10%. A pesquisa traz a hipótese de que, naquela época, com o computador pessoal, que foi levado a ser mais objeto de interesse masculino, as mulheres desapareceram dos cursos”, apontou.

Elisabete Waller, sócia de Advisory da EY, que acompanhou a discussão da plateia concordou e afirmou que quando ingressou na universidade de Ciência da Computação sua sala era composta por três mulheres e, ao final, apenas duas se formaram.

Também da plateia, para agregar à discussão, Ruy Shiozawa, presidente doGreat Place to Work (GPTW) Brasil, levantou dados interessantes. De acordo com ele, do total de graduados no Brasil, 60% são mulheres, em pós-graduação o número cai para 51%, já em gestão são 33%. “Quando se fala de salário, o cenário é ainda pior. Para posições iguais, com mulheres com mais tempo de casa, mais formação, elas ganham 35% a menos em média”, apontou.

Afinal, o que acontece?
Na opinião das painelistas, o problema começa lá atrás. Lyzbeth Cronembold, diretora de TI e Operações de TI MDOOH do Grupo Bandeirantes de Comunicação , apontou que não há incentivo na infância para as mulheres seguirem carreira em tecnologia. “Isso está muito ligado aos valores familiares”, comentou.

Jane Noronha, CIO da Gafisa, concordou e acrescentou que a maioria dos pais não incentiva mulheres a competir. Já Viviane Lusvarghi, CIO da Santher, comentou que, em sua visão, a falta de incentivo está relacionada ao modelo que a mãe representa para a filha.

Como incluir mulheres na TI?
Para Viviane, é preciso equidade de gêneros. Tanto que no recrutamento para a TI da Santher, na primeira fase de seleção dos currículos, o nome e o gênero do candidato são ocultados. “Isso tem sido uma surpresa”, relatou.

Jane segue a mesma linha. “As mulheres geralmente são mais capacitadas do que os homens”, acrescentou. O ideal, disse Lyzbeth, é fomentar na empresa uma política de diversidade, incluindo práticas de recrutamento e seleção nesse sentido. “Um exemplo interessante é a Nestlé.”

Ascensão profissional
Outro tema discutido no painel foi a ascensão profissional de mulheres. Elas comentaram que investem em coaching e mentoring de outras mulheres, mas que também é preciso se posicionar e arriscar, até mesmo aplicando para vagas que elas acreditam que não têm todas as competências. Da plateia, Monica Panelli, diretora de marketing da Rimini Street para América Latina, afirmou que, de fato, as mulheres precisa se colocar mais. Lyzbeth acredita que a resposta está no fato de, efetivamente, mostrar resultados.

Exemplos a serem seguidos
Eduardo Kondo, CIO da Aché, entrou na discussão para apontar que as mulheres precisam discutir mais onde chegaram. “Vejo pouco isso”. Ele recentemente estive na Universidade de São Paulo na Escola de Engenharia, e todos os convidados para falar sobre suas carreiras eram homens. “Há exemplos como a Cristina Palmaka, da SAP, e a Paula Bellizia, da Microsoft, que fomentam o tema, mas precisamos de mais.”

Viviane concordou e acrescentou que até mesmo no prêmio Executivo de TI do Ano, promovido pela IT Mídia, o número de mulheres era bastante tímido, mas cresceu neste ano e duas delas, incluindo a própria executiva, levaram o prêmio para casa. “Temos um grupo de mulheres no WhatsApp e eu as provoquei a participar. Para mim, foi a primeira vez e sai vitoriosa”, comemorou.

Inclusão x exclusão
Falar de mulheres na TI é também uma forma de exclusão? Jane acredita que sim, é uma forma de segregação. Contudo, criar debates sobre o tema é uma forma de ajudar as demais mulheres. “Temos de virar referência para elas. Se elas não virem que é possível, não vão”, assinalou. Na visão de Alessandra Bomura, CIO da Vivo, a discussão também tem de incluir os homens. Alguns deles, inclusive, participaram do debate no IT Forum.

Márcia Sabino Duarte, CIO da Caesb, engrossou o coro e afirmou, ainda, que uma pessoa é competente ou não é e a discussão não deveria girar em torno de ser homem ou mulher.

Mais resultados
Janet Donio, CIO da Vicunha, citou estudo recente que mapeou o desempenho de empresas com mulheres no conselho e o resultado delas foi superior. às demais do mercado “Os boards têm pouco número de mulheres e TI tinha de ter mais representatividade também”, provocou.

Atitude
Em linha com o tema do IT Forum: Mudança, Medo e Atitude, Maria Alice perguntou às painelistas o que é possível fazer para mudar. Elas foram unânimes ao dizer que é crítico fazer acontecer e cada uma tem papel fundamental. Lyzbeth participa do Movimento ElesPorElas (HeForShe) de Solidariedade da ONU Mulheres pela Igualdade de Gênero.

Ela também citou um programa da SAP para inclusão de mulheres na TI, que tem como foco pessoas de comunidades. “Precisamos criar referências”, sentenciou. Já Viviane enfatizou o fato de mulheres precisarem ter atitude e engajar os homens na conversa.

E, você, o que acha?